Saúde mental em pauta: quebrar o tabu é preciso

Por Alexandre Cossenza

A cena foi forte: a mão de Beatriz Haddad Maia tremia ao segurar uma garrafa d’água na virada de lado. Pouco antes, na mesma partida, válida pelo WTA de Seul do ano passado, a ex-top 10 fazia força para puxar ar após um ponto. Foi seu último torneio na temporada. Ao voltar ao Brasil, Bia anunciou que tomaria um tempo para descansar o corpo e a cabeça.

Ali, o tênis brasileiro precisou parar para falar sobre um tema cada vez mais presente no esporte de alto rendimento: saúde mental. O assunto, que era tabu até não muito tempo atrás, virou conversa obrigatória em toda parte. Reconhecer a necessidade de buscar ajuda para manter a cabeça em dia durante uma longa temporada – algo que já foi visto como sinal de fraqueza – hoje, mais do que nunca, é crucial.

Hoje, Bia faz outra pausa. Disse que sua relação com o tênis não tem sido fácil e optou por usar o benefício do ranking protegido, ficando pelo menos seis meses fora dos torneios. Afastar-se do circuito não é exclusividade da brasileira. Longe disto. Em 2014, a australiana Ashleigh Barty, uma grande promessa na época, tinha apenas 18 anos quando decidiu parar de competir por um tempo. Precisava de uma folga das viagens e das expectativas por seus resultados. Voltou ao tour em 2016. Três anos depois, tornou-se número 1 do mundo.

Na época, porém, poucos prestaram atenção ao aspecto mental da pausa de Barty. O tema só veio à pauta com força de verdade no tênis em 2021, quando Naomi Osaka recusou-se a participar de entrevistas coletivas em Roland Garros alegando desgaste psicológico. A japonesa acabou abandonando o torneio e revelando sua luta contra a depressão.

Ali, o esporte – não só o tênis – parou para prestar atenção. E olhou para o assunto com microscópio quando, naquele mesmo ano, a ginasta multicampeã Simone Biles desistiu de provas nos Jogos Olímpicos de Tóquio e buscou terapia para tratar uma questão mental.

“Foi a primeira vez que uma fraqueza foi demonstrada em um palco global assim. Agora olho para aquilo como um ato de coragem, não como uma fraqueza”, disse Biles este ano. A americana, inclusive, citou Osaka como exemplo: “Gostaria que mais atletas tivessem falado sobre o que estavam atravessando quando eu competia. Houve Naomi Osaka e Kevin Love (jogador de basquete que falou abertamente sobre crises de pânico, ansiedade e depressão), mas poucos falaram sobre saúde mental. Eles foram meus guias”.

WTA + MODERN HEALTH: DESESTIGMATIZANDO O TEMA

Desde então, o esporte e suas entidades vêm buscando maneiras de preservar a saúde mental dos atletas. A WTA faz sua parte com seu programa de Mental Health & Performance, colocando à disposição das jogadoras uma série de especialistas de primeira linha em aconselhamento de saúde mental e treino de habilidades para o desempenho mental. Ainda há orientação em como lidar com a vida no circuito e apoio para ajudá-las na longevidade e no equilíbrio da relação entre vida pessoal e profissional.

Outro pilar do trabalho da WTA neste sentido é a parceria com a Modern Health, uma plataforma que promove saúde mental em ambientes de trabalho. Para ajudar a desestigmatizar o tema e encorajar pessoas a falarem mais sobre o assunto, a empresa produziu uma série de cinco episódios entrevistando tenistas que compartilharam suas experiências com ansiedade, depressão e solidão.

O mais recente deles foi com Paula Badosa, estrela do SP Open deste ano. A espanhola falou sobre uma crise de pânico que viveu em quadra. “Há pessoas olhando, e você não quer que elas vejam. Na quadra, meu corpo não respondia. Não conseguia pensar claramente diante das bolas que estavam vindo. Não conseguia respirar. O ar não entrava, e me senti tonta também. Ao mesmo tempo, tive cãibras. Estava quente. Não consegui continuar. Eu gostaria de ter falado que estava tendo uma crise de pânico, mas não podia porque achava que as pessoas me julgariam, pensariam que eu era fraca. Então eu disse que tinha uma lesão.”

A ex-número 2 do mundo também destacou a importância da conexão entre mente e corpo. “Quando eu me sinto bem mentalmente, o corpo sempre responde. Você tem mais confiança. Quando você está em um estado mental positivo, você se sente melhor, não sente o cansaço, joga pontos longos e se sente bem. Quando você está ansiosa ou negativa, o corpo reage mais lentamente e você sente o cansaço mais cedo. Está tudo conectado.”

Sloane Stephens, campeã do US Open de 2017, falou sobre como foi importante começar sessões de terapia quando tinha 15 anos, após perder, em um curto espaço de tempo, seu pai e seu padrasto. “Na época, meu irmão e eu não entendíamos por que tínhamos que fazer aquilo, mas gostei muito da psicóloga. Ela era muito compreensiva, e eu estava tentando entender a minha vida com o tênis, se eu me tornaria profissional ou iria para uma faculdade. Aquilo nos ajudou muito porque estávamos confusos. Pelo fato de minha mãe ser uma psicóloga, ela sempre mostrou a importância de terapia e autocuidados em nossas vidas.”

“Muitas pessoas não dão o devido valor ao que é bem-estar mental. Para mim, trabalhar com uma psicóloga e ter alguém com quem conversar… Sou muito próxima da minha família, mas é diferente. Há questões em que só ela pode me ajudar. A terapia foi o melhor presente que dei a mim mesma. É algo de que nunca vou me arrepender. É a chave para a felicidade, é a chave para muitas coisas.”